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SAÚDE

Água contaminada e falta de salário de médicos em hospital estadual: 'A população não tem dimensão'

Instituto privado faz gestão de unidade e médicos denunciam atraso de três meses no pagamento de salários
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Por: Correio 24h / Imagens: Reprodução | Pub.: 27/05/2026 10:49 | Atual.:27/05/2026 11:04
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O último salário foi em fevereiro. Desde então, médicos que atuam no Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães (HRDLEM), em Porto Seguro, não recebem um tostão. A unidade é estadual, mas é administrada por uma empresa terceirizada - o Instituto Setes. Segundo médicos que falaram com a reportagem, a empresa tem recebido repasses da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), mas não tem pagado os profissionais.

"Essa é uma preocupação, mas não é a única. O hospital como um todo está completamente abandonado", revelou um médico que conversou com o CORREIO sob sigilo. À falta de insumos básicos e de roupas cirúrgicas a equipamentos quebrados há mais de seis meses, somou-se um problema dramático: a contaminação da água do hospital, que teria sido afetada por superbactérias.

Desde o final do ano passado, o hospital é gerido pelo Instituto Setes. Enquanto outros profissionais são contratados pelo regime CLT e têm recebido salários, os médicos são contratados como pessoa jurídica. "Nosso contrato de pagamento é vinculado ao repasse da Sesab. Após o repasse da Sesab, a nossa nota fiscal é lançada e a empresa tem 20 dias úteis para pagar a gente. Acontece que o repasse está sendo feito e eles não estão pagando. Ficam falando que não está sendo feito, mas a gente consegue ver que tem sido feito", relata uma médica que também não quis se identificar.

Unidade de referência na região, o hospital atende especialidades como trauma, neurocirurgia e cirurgia geral. Lá, há duas UTIs com 30 leitos e uma sala vermelha com 20 leitos. Mesmo com esse porte, contudo, há seis meses o tomógrafo não funciona.

"Afeta pacientes politraumatizados, pacientes com AVC... A gente perde tempo de janela porque o tomógrafo está inoperante", explica a médica. Segundo o colega dela, nos últimos dias, a empresa divulgou um comunicado informando que o equipamento estaria em funcionamento. "Funcionou dois dias e pronto. Parou. É um aparelho que fica entre a pessoa ter uma sequela por AVC ou até morrer de AVC", enfatiza o médico.

Além de equipamentos, há registro de falta de materiais básicos, como tubos de exames e insumos para curativos. Assim, boa parte das cirurgias - em especial, ortopédicas - estão sendo suspensas. Muitos pacientes têm sido encaminhados ao sistema de regulação.

Água

Mas o ponto mais dramático e que tem assustado pacientes veio no último mês: a contaminação da água da unidade. "Está meio nebuloso o que aconteceu, mas começaram a identificar uma alta taxa de infecção em pacientes da UTI. Quando foram fazer uma análise, descobriram que é a água. Não falam para a gente qual é a bactéria, mas o burburinho é que é uma bactéria superesistente", conta a médica que não quis se identificar.

Segundo os profissionais ouvidos pela reportagem, todos os bebedouros da unidade estão interditados. O CORREIO recebeu fotos de bebedouros interditados. "É a água que a gente bebe, escova os dentes, que toma banho, que é utilizada para fazer nossa alimentação e dos pacientes. Por um período, as cirurgias e a hemodiálise foram suspensas", acrescenta ela, que calcula que a paralisação tenha sido há duas semanas. Atualmente, o hospital tem comprado galões de água. "As criancinhas do berçário estão tomando banho com água mineral".

Outro médico contou que tem levado sua própria água e toda a comida que consome. "Hoje, dia 26 de maio, se você pedir a qualquer paciente para tirar foto do bebedouro, ainda vai estar lacrado. Não temos nenhuma transparência com relação a isso", diz.

Renda

Para boa parte dos cerca de 100 médicos que atua no hospital, o trabalho na unidade é a única renda. O hospital não tem diretor clínico e os médicos afirmam temer represálias e demissões. "Estamos de mãos atadas. Se você olhar o portal de transparência, a Sesab está honrando o contrato. Estão sendo feitos repasses. Mas o dinheiro está sendo usado para qualquer outra coisa que não seja pagar os profissionais, consertar o tomógrafo ou resolver o problema da água", diz o médico.

 

Não é o primeiro problema com profissionais do HRDLEM. Em dezembro, toda a equipe de ginecologia e obstetrícia pediu demissão coletiva. Na ocasião, os oito médicos disseram que tiveram salários reduzidos pela gestão do Instituto Setes, que tinha assumido o hospital.

Atualmente, a empresa terceiriza o serviço de obstetrícia. Foi feito o contrato com outra empresa, que traz dois obstetras diferentes todas as semanas. De acordo com os médicos que atuam na unidade ouvidos pelo CORREIO, eles passam sete dias no hospital.

"São pessoas que estão com sete dias de plantão seguidos, sem folga. É um risco assistencial extremo para a população", pontua o médico.

No entanto, os médicos não pararam com atendimentos não emergenciais em nenhum momento. "A população em si não tem dimensão do que está acontecendo dentro do hospital. Eles continuam tendo atendimento, mas não vejo como um atendimento eficaz, porque não temos materiais", acrescenta ele.

Com 80% da renda vinda do HRDLEM, a médica acredita que se trata de descaso com os profissionais e com a população. "Começa a ser normalizado o esdrúxulo. Parece que a gente está errado em falar, em cobrar. É uma inversão de valores".

Ao CORREIO, o Instituto Setes enviou uma nota por meio da assessoria. No texto, HRDLEM informa que o aparelho de tomografia está em pleno funcionamento e  que técnicos especializados realizam, de forma contínua, as manutenções necessárias no equipamento.

"Quanto ao abastecimento de materiais médico-hospitalares, medicamentos e insumos, esclarecemos que os fornecimentos vêm sendo garantidos conforme a demanda assistencial da unidade, visando assegurar a continuidade dos atendimentos prestados à população. No que se refere ao enxoval hospitalar, incluindo roupas, lençóis e cobertores, o hospital mantém o abastecimento regular, contando inclusive com centro de costura próprio instalado dentro da unidade, o que contribui diretamente para a manutenção e reposição do enxoval hospitalar.", dizem.

Ainda sobre a água, o hospital diz que a Vigilância Sanitária já tem ciência da situação e que adotou as providências necessárias para regularização, conforme as normas e orientações preconizadas pelos órgãos de vigilância sanitária e ambiental competentes.

"Em relação às cirurgias oncológicas vinculadas ao UNACON, ressaltamos que não há ausência de comunicação entre os setores envolvidos. Tais procedimentos são programados previamente, caracterizando-se como cirurgias eletivas, com planejamento antecipado entre equipes assistenciais, setores de internação, UTI e demais serviços necessários para adequada condução do pré e pós-operatório", acrescentam.

Quanto aos salários, o Instituto Setes informou que é responsabilidade da Sesab. "Instituto SETES informa que está à frente da gestão do Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães (HRDLEM) há sete meses. Entretanto, até o presente momento, houve o repasse de apenas cinco parcelas contratuais, registrando-se, de forma recorrente, um intervalo médio de aproximadamente 75 dias entre os repasses, situação que compromete significativamente a adequada operacionalização da unidade hospitalar". 

Já a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia confirmou que realiza pagamentos regulares e consecutivos a todos os fornecedores e responsáveis pela gestão de unidades. “Não há pagamentos fora do prazo de vencimento em relação ao Hospital Regional Deputado Luís Eduardo Magalhães (HRDLEM)”, diz o órgão, em nota.

Além disso, a secretaria informou que o fornecimento de materiais médico-hospitalares, medicamentos e insumos vem sendo garantido conforme a demanda assistencial da unidade, visando assegurar a continuidade dos atendimentos prestados à população.

“Sobre a questão relacionada à qualidade da água utilizada na unidade, esclarecemos que a Vigilância Sanitária já possui ciência da situação e que o hospital adotou imediatamente as providências necessárias para regularização, conforme as normas e orientações preconizadas pelos órgãos de vigilância sanitária e ambiental competentes”.



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